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torradas com manteiga já são pouquíssimos os cultores, tanto no que toca ao
preparar como ao consumir. Perdoadas sejam estas banalíssimas considerações
gastronómicas a um homem que leva no bolso uma bomba. Já comeu, já pagou,
agora caminha em passo largo em direcção ao segundo objectivo. Demorou
quase vinte minutos a lá chegar. Atrasou o andamento quando entrou na rua,
tomou o ar de quem vai de passeio, sabe que se há polícias de vigia o mais
provável é que o reconheçam, mas isso não lhe importa. Se algum destes o vir e
informar do que viu o seu chefe directo, e se este passar a informação ao superior
imediato, e este ao director da polícia, e este ao ministro do interior, é certo e
sabido que o albatroz grasnará com o seu mais cortante tom de voz, Não vale a
pena que me venham contar aquilo que já sei, digam-me o que preciso de saber,
isto é, que é que esse comissário de má morte anda a tramar. A rua está mais
concorrida que de costume. Há pequenos grupos em frente do prédio onde a
mulher do médico mora, são pessoas que vivem neste bairro e que, movidas por
uma bisbilhotice em certos casos inocente, mas de mau agoiro em outros, vieram,
de jornal na mão, ao lugar onde habita a acusada, a quem mais ou menos
conhecem de vista ou de ocasional trato, dando-se a inevitável coincidência de
que dos olhos de algumas delas tem cuidado o saber do marido oftalmologista. O
comissário já viu onde estão os vigias, um deles tinha-se juntado a um dos grupos
mais
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numerosos, o outro, encostado com simulada indolência a uma parede, lê uma
revista de desportos como se para ele não existisse, no mundo das letras, nada
que pudesse ter maior importância. Que esteja a ler uma revista e não um jornal,
tem fácil explicação, uma revista, sendo protecção suficiente, rouba muito menos
espaço ao campo visual de um vigilante e mete-se rapidamente no bolso se de
repente for necessário ir atrás de alguém. Os polícias sabem estas coisas,
ensinam-lhas desde o jardim-de-infância. Ora, acontece que estes aqui não estão
ao corrente das tormentosas relações entre o comissário que ali vem e o
ministério de que dependem, por isso pensam que ele também faz parte da
operação e veio verificar se tudo se encontra em conformidade com os planos.
Não é de estranhar. Embora em certos níveis da corporação já se tenha
começado a murmurar que o ministro não está satisfeito com o trabalho do
comissário, e a prova disso está em ter mandado regressar os ajudantes,
deixando-o a ele em pousio, outros dizem stand by, a murmuração ainda não
chegou às camadas mais inferiores a que estes agentes pertencem. Há que
esclarecer, no entanto, e antes que esqueça, que os ditos murmuradores não têm
qualquer ideia precisa sobre o que o comissário veio fazer à capital, o que serve
para demonstrar que o inspector e o agente, lá onde agora se encontrem, têm
mantido a boca calada. O interessante, porém sem nada de divertido, foi ver como
os polícias se aproximaram com ar conspirativo do comissário para lhe
segredarem pelo canto da boca, Sem novidade. O comissário assentiu com a
cabeça, olhou as janelas do quarto andar e afastou-se, pensando, Amanhã,
quando os nomes e as moradas forem publicados, haverá aqui muito mais gente.
Pouco adiante viu passar um táxi livre e chamou-o. Entrou, deu os bons-dias e,
tirando os sobrescritos do bolso, leu as direcções e perguntou ao motorista, Qual
destas fica mais perto, A segunda, Leve-me lá então, por favor. No banco ao lado
do condutor havia um jornal dobrado, aquele que tinha posto por cima
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da notícia, em letras de sangue, o impactante título de Descoberto Finalmente O
Rosto Da Conspiração. O comissário sentia-se tentado a perguntar ao motorista
qual era a sua opinião sobre a sensacional notícia publicada nos jornais de hoje,
mas desistiu da ideia com medo de que um tom demasiado inquisitivo da voz lhe
denunciasse o ofício, A isto se chama, pensou, sofrer de uma excessiva
consciência da sua própria deformação profissional. Foi o condutor quem entrou
na matéria, Eu não sei o que o senhor pensa, mas essa história da mulher que
dizem não ter cegado parece-me uma aldrabice de marca maior inventada para
vender jornais, se eu fiquei cego, se todos ficámos cegos, como é que essa
mulher continuou a ver, é uma balela que não entra na cabeça de ninguém, E isso
que dizem de ser ela a causadora do voto branco, Essa é outra, uma mulher é
uma mulher, não se mete nessas coisas, ainda se  fosse um homem, vá que não
vá, poderia ser, agora uma mulher, pffff, Já veremos como isto acabará, Quando à
história se lhe acabar o sumo, inventarão logo outra, é o que sempre sucede, nem
o senhor imagina quantas coisas se aprendem agarrado a este volante, e ainda
lhe vou dizer mais uma coisa, Diga, diga, Ao contrário do que toda a gente julga, o
espelho retrovisor não serve só para controlar os carros que vêm atrás, também
serve para ver a alma dos passageiros, aposto que nunca tinha pensado nisto,
Deixa-me assombrado, realmente nunca pensei, Pois é como lhe digo, este
volante ensina muito. Depois de semelhante revelação o comissário achou mais
prudente deixar cair a conversa. Só quando o motorista parou o carro e disse, Cá
estamos, se animou a perguntar se aquilo do espelho retrovisor e da alma se
aplicava a todos os carros e a todos os condutores, mas o motorista foi
peremptório, Só nos táxis, meu caro senhor, só nos táxis.
O comissário entrou no edifício, dirigiu-se ao balcão da recepção e disse, Bons
dias, represento a firma providencial, s. a., seguros & resseguros, desejaria falar
com o senhor director,
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Se o assunto que o traz aqui é de seguros, talvez fosse mais aconselhável falar
com um administrador, Em princípio, sim, tem toda a razão, mas o que me trouxe
ao vosso jornal não é de natureza somente técnica, portanto seria indispensável
que pudesse falar directamente com o senhor director, O senhor director não está
no jornal, suponho que não virá antes do meio da tarde, Com quem lhe parece
então que deverei falar, qual é a pessoa mais indicada, Creio que o chefe de
redacção, Sendo assim, peço-lhe o favor de me anunciar, lembre-se, a firma
providencial, s. a., seguros & resseguros, Não quer dizer-me o seu nome,
Providencial bastará, Ah, compreendo, a firma tem o seu nome, Exactamente. A [ Pobierz caÅ‚ość w formacie PDF ]

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